terça-feira, 27 de julho de 2010

Onde está o alvo?

O que é o que é?
Que está entre a imitação e a invenção? A ins-pir-ação
Que está entre a prosa e a poesia? O concreto
Que está entre o líder e o liderado? O não-autor
Que está entre seguir e propor? Despreocupar-se
Que está entre o passivo e o ativo? Algo dispara
Que está entre a flecha e o alvo? Desapegar-se

Fiquei pensando nesta qualidade de ATENÇÃO que estamos trabalhando e não pude deixar de lembrar um autor que fala sobre sua aprendizagem com arco e flecha com um mestre zen. É muito interessante ouvir o seu relato sobre como quanto mais ele se preocupa em acertar o alvo, mais ele erra. Ao mesmo tempo, esquecer de acertar o alvo é um exercício de desapego, mas com muita disciplina e treinamento. Como refinarmos nosso cultivo de atenção no Lgo Machado? É tanta riqueza de coreografia, são tantas flechas que são disparadas simultaneamente em inúmeras direções pelos pedestres, pelos pombos, pelos personagens identificáveis e não-identificáveis que não precisamos fazer quase nada no sentido de fazer ou ser ativo ou ser muito propositivo, mas temos que ter uma ATENÇÃO imensa para sermos alvos ou re-condutores de tais flechas. As flechas já estão todas aí: atiradas. Como seguí-las? Como ampliá-las? Como escondê-las? Como desviar suas rotas?

Trechos do livro "A Arte cavalheiresca do arqueiro Zen" (Eugen Herrigel) que ele nos oferece para este momento:
"Somente se o próprio arqueiro se surpreender com a saída de sua flecha é que o tiro sai suavemente"
"Não é o arqueiro que atira a flecha, a flecha é que se solta do arqueiro"
"Quando o arqueiro Zen dispara a flecha, ele atinge a si próprio"
"O que obstrui o caminho é a vontade demasiadamente ativa"
"Um tiro, uma vida"
"Com a extremidade superior do arco, o arqueiro trespassa o céu; na inferior está suspensa, por um fio de seda, a terra"
"A aranha dança a sua rede sem pensar nas moscas que se prenderão nela. A mosca, dançando despreocupadamente num raio de sol, se enreda sem saber o que a esperava. Mas tanto na aranha, como na mosca, algo dança, e nela o exterior e o interior são a mesma coisa. Confesso que me sinto incapaz de explicar melhor, mas é dessa maneira que o arqueiro atinge o alvo, sem mirá-lo exteriormente"

3 comentários:

luciana disse...

gosto muito da sua maneira de entender a atenção. concordo quanto ao refinamento da escuta. Tudo já está dado.
luciana.

Carol Boa Nova disse...

COMPARTILHANDO REFLEXÕES SOBRE: ATENÇAO COMO UM PRINCÍPIO PARA ATINGIR A PRESENÇA.
Hoje, no avançar dessa pesquisa sobre esse tema, percebo que talvez existam estágios de atenção. Fazemos exercícios para ativar a atenção com o objetivo de desenvolver a presença cênica, mas percebo que quando há centelha da vida, ou seja, quando a presença está instaurada no momento do aqui e agora a atenção atinge um nível apurado, mais aguçado onde o sujeito é capaz de perceber com um nível de sutileza e refinamento, com maior capacidade de relação com o instante. Recebendo-o na forma como ele se apresenta, é que o intérprete torna-se capaz de responder a esse instante, de dialogar com esse instante presente. Só nesse estado de atenção num nível apurado é que o sujeito pode se abrir para receber o instante, diminuindo cada vez mais o tempo entre o impulso e a ação, como dizia Grotowski. Dessa forma o instante passa a ser uma série de impulsos vivos, presentes, renovados a cada ação.
A atenção é o que há de mais vital na existência. Sem atenção não há ação presente. É como se ficássemos a mercê de velhos padrões e automatismos. Para Osho (2004), filósofo e mestre oriental a ação presente surge de uma mente silenciosa. Ação é quando uma situação pede uma resposta e você age. A ação acontece a cada momento de forma espontânea, e sendo assim, ela é criativa e deve corresponder ao momento presente.
Acredito que antes de atingir esse estágio de atenção o indivíduo vivencia uma fase de atenção que ainda passa muito por um campo mental, que está atento, mas que pensa sobre essa atenção ao mesmo tempo. Num estado mais apurado de atenção o indivíduo se relaciona com o instante de forma a responder aos estímulos sem que os pensamentos tornem essa relação turbulenta e confusa. É como se o indivíduo resolvesse meditar, silenciar a mente, não pensar em nada, cessar o pensamento por uns instantes e nesse momento ele pensar que não está pensando em nada. Quando ele pensa que não está pensando em nada ele já está pensando. Por isso penso que esse estado de presença é também esse estado meditativo onde a ação é uma resposta criativa ao agora, é uma relação com o instante, é uma abertura para o novo. Talvez esse estado de atenção onde a mente interfere de forma metódica, ordenada, seja exercício para se alcançar um estado de atenção mais apurada onde a mente não pensa sobre a ação, mas onde ela é ação. Um estado onde o indivíduo tem consciência de que precisa estar com todo seu foco na cena, com toda sua concentração no momento presente e acaba assim se preocupando em chegar num estado de presença. Nesse lugar da pré-ocupação a mente já se dispersou e a energia não está mais concentrada na ação presente, a mente está ocupada com outros pensamentos, e por estar pré-ocupada com o que deve ser não se ocupa com o que é.
Também compreendo que para atingir esse estado pleno de inteireza na cena ou no cotidiano é preciso trabalho incessante de cada dia. Adquirir técnicas, estratégias, registros para se chegar a esse estado, tudo isso é processo conquistado com o trabalho de cada dia. É um processo porque nunca está acabado e que na qualidade de seres humanos estamos sujeitos a influências externas e internas que podem comprometer a qualidade de nossas relações, seja por causa de uma emoção, um pensamento ou algo que nos distraia e concentre energia em outro lugar no espaço/tempo distanciando o aqui e agora. É um reconhecimento eterno do ser integral, do ser inteiro na ação.
Acredito que a presença cênica, ou simplesmente, presença é um estado dinâmico, um estado ativo, um estado vazio para receber o novo, um estado que, segundo Tourinho (2009) tem em si a condição da transitoriedade.
Carol Boa Nova

paoleb disse...

estes comentários me fazem lembrar da noção de "clareira" do heidegger. um lugar de revelação e espanto, a clareira se abre na realidade não por qualidades espetaculares em si, mas pela predisposicão do ser aí, do estar aí, da escuta não voluntariosa, mas de uma atenção desatenta...